quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Come togheter

   Ela falava ao celular quando o viu subindo as escadas. Cumprimentaram-se com um beijo no rosto antes do café combinado. A desculpa para o encontro era uma palestra chata qualquer. Ela o convidou mesmo sem vontade nenhuma de assistir, ele fez-se de interessado e foi unicamente para vê-la. No início havia alguma timidez. Seus olhos não se cruzavam. Falaram sobre amenidades enquanto ela notava seu cabelo mais curto e ele via, não sem uma íntima inquietação, que ela usava mais maquiagem que o habitual. Talvez mais do que a ocasião pedia... Em todo caso era um sinal de que havia se preparado para vê-lo.
   A palestra discutia os mesmos velhos assuntos. Absortos, os dois comunicavam-se por bilhetes deixando roçarem os braços um no outro. Certo instante ele ia dizer-lhe o que vinha sentindo, hesitou um momento e por fim desisitiu. Ela achou por um breve momento que ele diria algo contundente, algo que ambos pressentiam mas vinham evitando falar, estava enganada. Talvez fosse sua mente fantasiando uma desejada declaração de amor ou simples manifestação de interesse que fosse, pensou ela.
   Despediram-se e foram embora, ele pensando nela e ela nele. Ambos aspiravam o amor tranqüilo e sabiam que esse era também o desejo do outro.
   Passados alguns dias tornaram a se falar. Desta vez foi ele quem iniciou a conversa. Como de praxe, iniciavam com um assunto corriqueiro, banal. Ela dedicava toda atenção a ele como se de fato fosse algo da mais extrema importância. Conversaram animadamente sobre assuntos da menor importância, de um jeito que só fazem os que escondem algo maior. Depois retomaram às usuais conversas pela Internet. A presença virtual do outro deixava ambos inquietos, mas a distância física permitia que os assuntos transcorressem sem que se percebesse qualquer segunda intenção. Pelo menos era isso que os dois fingiam.

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