Ele sentia atração por meninas vegetarianas, daquelas que andam com saias até os pés e militam em prol de alguma causa. Um olhar que não entregava de cara a idade. Tinha mesmo um olhar estranho, por assim dizer. Apesar dos vinte e poucos anos possuía o encanto e o mistério que tem somente os homens acima dos trinta . Muitas vezes parecia um senhor septuagenário, alternando entre um adorável velhinho e um velho rabugento. E isso era uma das coisas que me encantavam nele. Apaixonei-me já durante as primeiras conversas. Em comum tínhamos o gosto por filmes e a aversão a certa escritora “moderninha”. Eu gostava do timbre da sua voz e sua escrita me transportava pra outra dimensão. Foi o que verdadeiramente me encantou , a escrita.
Sempre tive uma queda por homens que escrevem bem... Que eu me lembre, Marcos Rey foi meu primeiro amor, paixonite púbere. Como um namorinho adolescente que encanta pelo sabor da novidade mas não tem ainda a sofisticação dos amores adultos. Paixão arrebatadora mesmo veio mais tarde com Machado de Assis. Este sim me tirou o sono por noites a fio, mudou minha cabeça e transformou-se em parâmetro para os muitos homens (e por vezes algumas mulheres) que vieram a seguir. Rubem Fonseca, Guimarães Rosa, Carlos Crummond de Andrade, J.D Salinger... A cada um deles eu me entregava de corpo e alma, a cada um eu me dediquei tanto quanto pude e, quando não era mais possível, seguia em frente não sem um certo pesar. Houveram recaídas. Uns de forma mais intensa, outros mais brandamente, foram decisivos para que me tornasse quem eu sou. Teve um de bigodes, alemão, paixão das mais violentas da vida, me fez sofrer na mesma medida em que me arrebatava. Ainda hoje busco sua companhia quando quero lembrar quem sou eu. Teve um outro, também de bigodes, esse português, que me seduzia com cada face de sua personalidade, com cada uma das tantos identidades que assumia. Afinal o que me encantava (e ainda me encanta) era sua essência, era ele mesmo, Fernando. E o que dizer da primeira experiência com uma mulher? Quando vi eu já estava enamorada, mesmo que no começo eu não a entendesse muito bem. Nem a ela nem a mim. Era bela, misteriosa e feminina. Ensinou-me que muitas vezes metáforas dizem mais que verdades. Foi com ela que aprendi a entender e apreciar as pequenas epifanias do cotidiano. Certa vez, não faz muito tempo, me encantei com um inglês descolado. Tem o humor leve que tanto aprecio e procuro nos homens. Louco por futebol, também gosta de cultura pop tanto quanto eu. É um amor atual, vez ou outra ainda temos encontros casuais.
De todos os que passaram continuo amando todos, de formas tão distintas quantas forem as paixões... Amo as palavras dos escritores que li, até mesmo uns bastante medianos. Mesmo alguns que provocaram em mim sentimentos ambíguos. A seu modo, cada um teve papel fundamental na minha vida. Assim como os homens, escritores ou não, da vida real. Vem e vão embora modificando pouco a pouco o que sou. Mas afinal eu gosto de transformações, vivo procurando o próximo “homem da minha vida”.

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